O seguro viagem e o custo altíssimo de "economizar" duzentos reais
Economizar R$ 200 em seguro viagem pode custar o preço de um apartamento no exterior, transformando férias em pesadelo financeiro. Um imprevisto médico simples pode gerar dívidas de centenas de milhares de reais, provando que a economia é uma ilusão arriscada.
O brasileiro tem um otimismo que pode causar um alto custo no futuro. A gente sai de casa acreditando cegamente que o imprevisto só acontece com o vizinho, que o "corpo é fechado" e que, se algo der errado, "a gente dá um jeito". Mas deixa eu te falar com a autoridade de quem já viu a conta de um hospital americano chegar a seis dígitos: no exterior, o "dar um jeito" pode custar o preço de um apartamento.
Se você acha que seguro viagem é "só mais um boleto" para encarecer suas férias, este texto não é para te vender nada. É para evitar que você transforme a viagem dos seus sonhos no maior pesadelo financeiro da sua vida.
1. A conta que ninguém quer pagar: Uma história real
Imagine o Caio Castro. Caio economizou dois anos para levar a família para a Disney. No terceiro dia em Orlando, uma dor aguda no abdômen: apendicite. Nada que ele pudesse prever ou evitar com "cuidado". Caio não tinha seguro; achou que os 400 reais da apólice eram melhor aproveitados em um jantar com os personagens.
O resultado? Uma cirurgia simples e dois dias de internação custaram US 52.000, na cotação de hoje estamos falado de algo em torno de 260 mil. Caio voltou para o Brasil não com memórias felizes, mas com uma dívida que comprometeu os próximos dez anos da sua família. O seguro teria custado menos que um par de tênis da Nike no outlet. O erro da Caio não foi a falta de sorte, foi a falta de cálculo de risco. Usei o Caio Castro como exmplo porquê ele realmente sofreu um acidente esquiando no Chile, fraturou a clavícula e fugiu pra não pagar a enorme conta.
2. O que o seguro cobre de verdade (e as letras miúdas)
A maioria das pessoas acha que seguro viagem é apenas para "médico". Na verdade, ele é um ecossistema de proteção. A cobertura principal é a DMH (Despesas Médicas e Hospitalares), mas o "pulo do gato" está nas coberturas acessórias:
Regresso Sanitário: Se você precisar de uma UTI aérea para voltar ao Brasil, isso custa fortunas. O seguro paga.
Traslado de Corpo: É mórbido, mas real. Trazer um corpo do exterior sem seguro custa cerca de R$ 50 mil.
Cancelamento de Viagem: Se um parente próximo adoece antes de você embarcar, o seguro te reembolsa as multas das passagens e hotéis.
A letra miúda: Fique atento às "Exclusões". A maioria dos seguros padrão não cobre acidentes em esportes radicais (nem sempre o que você acha radical é o que a seguradora acha — até um passeio de esqui ou uma trilha íngreme pode estar fora). Outro ponto: se você beber e se envolver em um acidente, a cobertura é cancelada automaticamente. Álcool e seguro não se misturam no contrato.
3. "Mas o meu cartão de crédito já tem seguro!"
Essa é a frase que mais ouço, e ela esconde uma armadilha perigosa. Sim, cartões Visa Infinite ou Mastercard Black oferecem seguro, e você precisa comprar as passagens com ele pra gerar a apólice, mas há três problemas latentes:
O sistema de reembolso: Muitos seguros de cartão funcionam por reembolso. Ou seja: você paga a conta do hospital de US$ 20 mil do seu bolso e depois pede o dinheiro de volta. Você tem esse limite no cartão ou esse dinheiro na conta agora?
O bilhete de seguro: O seguro não é automático. Se você não emitir o bilhete no site da operadora antes de viajar, você não está coberto. Porém, é fácil de fazer, só nao pode realmente esquercer.
Coberturas baixas: Muitas vezes o valor segurado é insuficiente para destinos caros como EUA ou Japão. Use o seguro do cartão como um "extra", ou leia cada linha antes de confiar sua vida a ele.
4. Seguro Viagem Nacional: Vale a pena no Brasil?
Você tem plano de saúde nacional? Se sim, verifique a abrangência. Muitos planos são apenas regionais. Se você mora em São Paulo e passa mal em Fernando de Noronha, seu plano pode não cobrir nada.
O seguro viagem nacional custa raros 5 ou 10 reais por dia e oferece algo que o plano de saúde não dá: indenização por bagagem extraviada e auxílio jurídico. Se você vai para um lugar onde o SUS é a única opção e você quer evitar filas, o seguro nacional é o melhor custo-benefício que existe.
5. Como comparar: O que olhar além do preço
Não escolha o primeiro da lista do site de comparação. Olhe para a DMH.
Para Europa (Tratado de Schengen), o mínimo obrigatório é 30 mil Euros. Mas sejamos francos: 30 mil Euros desaparecem em três dias de internação. Procure apólices de 60 mil para cima.
Verifique a cobertura para Doenças Preexistentes. Antigamente, seguro não cobria isso. Hoje, por lei, todas as DMHs devem cobrir crises de doenças preexistentes até o limite da apólice.
6. Quanto custa a paz de espírito? (Estimativas)
Os valores variam conforme a cotação do dólar e o número de dias da viagem, mas a média por pessoa para 10 dias viajando é:
América do Sul: R$150 a R$200
Europa: R$250 a R$350 (exigência de coberturas específicas).
EUA: R$350 a R$500 (devido ao altíssimo custo médico local).
Japão: R$400 a R$600 (um dos sistemas de saúde mais caros do mundo).
Divida isso pelos dias de viagem. Dá menos que um lanche no aeroporto por dia.
7. Os 3 erros mais comuns e a diferença vital
Erro 1: Colocar a data de chegada como o fim do seguro. Se o seu voo atrasar e você chegar um dia depois, e sofrer um acidente no aeroporto, você está descoberto. Contrate sempre um dia a mais.
Erro 2: Omitir informações. Esconder que você está grávida ou que tem uma condição crônica pode anular sua apólice.
Erro 3: Não salvar o contato de emergência. O seguro não serve de nada se você não sabe como ligar para a central (que atende em português e a cobrar).
Seguro vs. Assistência:
Antigamente havia diferença. Hoje, a maioria dos produtos é híbrida. A Assistência é quando a empresa organiza tudo para você (indica o hospital, paga direto para eles). O Seguro é quando você paga e pede o reembolso. Prefira sempre empresas que foquem na assistência direta, para que você não precise desembolsar dinheiro em espécie durante a emergência.
Conclusão
Viajar sem seguro não é sinal de coragem, é sinal de descuido com a saúde. É apostar o patrimônio da sua família contra uma estatística que você não controla. No fim das contas, o seguro viagem é o único item da sua mala que você compra rezando para não usar, mas que, se precisar, será o único capaz de salvar não apenas sua saúde, mas o seu futuro financeiro.
Você não vai conseguir fugir do hospital igual o Caio Castro. Faça o seguro.
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